A Importância do Controle de Estoque, Lições do Caso Grupo Mateus
Controle de Estoque, Lições do Caso Grupo Mateus
A Importância Crítica do Controle de Estoque na Formação do CPV, Lições do Caso Grupo Mateus
O controle de estoque é um dos pilares da gestão financeira e fiscal de qualquer empresa que comercializa produtos. Uma falha nesse processo não se limita a erros operacionais, ela impacta diretamente o Custo dos Produtos Vendidos (CPV), distorce margens, altera resultados e pode gerar consequências graves, como vimos recentemente no caso do Grupo Mateus, que precisou ajustar seus estoques em R$ 1,1 bilhão devido a erros acumulados no cálculo do custo médio.
Esse episódio se tornou um dos maiores ajustes contábeis da história do varejo nacional, e trouxe lições valiosas para empresas de todos os portes.
O Caso Grupo Mateus, Um Ajuste Bilionário que Expôs Fragilidades
Em novembro de 2025, o Grupo Mateus, uma das maiores redes de varejo do Norte e Nordeste, divulgou uma revisão contábil que revelou uma relevante superavaliação de seus estoques. A empresa acreditava possuir cerca de R$ 6 bilhões em mercadorias, mas o valor real era pouco mais de R$ 4,9 bilhões.
Impacto nos números
| Indicador | Antes do Ajuste | Após o Ajuste | Variação |
|---|---|---|---|
| Estoque consolidado (dez, 2024) | R$ 6,047 bilhões | R$ 4,939 bilhões | -R$ 1,108 bilhão |
| Patrimônio Líquido | R$ 9,8 bilhões | R$ 9,1 bilhões | -R$ 695 milhões |
| CMV no 3T25 | — | +R$ 63 milhões | +0,4 p.p. |
| Perdas de inventário (2025) | — | R$ 91 milhões | Efeito extraordinário |
O impacto líquido total foi de R$ 731 milhões, equivalente a 3,8% do ativo total da empresa, suficiente para fazer as ações caírem cerca de 20% em cinco dias, eliminando mais de R$ 2 bilhões em valor de mercado.
Por Que o Controle de Estoque é Essencial para o CPV?
A formação do CPV (ou CMV, no varejo) segue a fórmula clássica:
CMV = Estoque Inicial + Compras – Estoque Final
Qualquer erro na mensuração do estoque final distorce todo o resultado:
Estoque superavaliado → CMV menor → lucro artificialmente maior
Estoque subavaliado → CMV maior → lucro artificialmente reduzido
No caso do Grupo Mateus, a superavaliação dos estoques levou a anos de lucros e margens reportadas acima da realidade.
O que Gerou o Rombo?
1. Falhas no cálculo do custo médio
A causa raiz foi identificada em erros na composição do custo médio ponderado, previsto no CPC 16, Estoques. O crescimento acelerado da rede elevou a complexidade tributária e operacional, e o sistema não conseguiu acompanhar.
Possíveis origens:
• erros no cálculo dos impostos de entrada, ICMS, PIS e COFINS
• bonificações registradas de forma incorreta
• custos de transporte e despesas acessórias mal tratados
• devoluções registradas de maneira imprópria
Situação semelhante já ocorreu em Carrefour, Dia e Americanas, relacionada ao tratamento inadequado de bonificações comerciais.
2. Alertas da auditoria foram ignorados
Desde 2021, a Grant Thornton havia identificado dezenas de deficiências moderadas nos controles internos, como:
• falta de acompanhamento do custo histórico
• falhas na rastreabilidade das entradas e saídas
• inventários físicos inconsistentes
Esses alertas foram reportados à CVM, mas desapareceram das divulgações posteriores, sem evidências de correção efetiva.
3. Problemas operacionais e inventários precários
A revisão revelou ainda:
• funcionários registrando itens caros com códigos mais baratos
• mercadorias desaparecidas em áreas de descarga
• lojas sem inventário desde a abertura
• inventários realizados apenas a cada quatro ou seis meses
Com a expansão acelerada, os controles simplesmente não acompanharam o ritmo.
O Estoque e seu Impacto nas Demonstrações Financeiras
1. Lucro Bruto
Lucro Bruto = Receita de Vendas – CMV
Com estoque superestimado, o CMV fica menor, e o lucro bruto aparece maior do que o real.
2. Balanço Patrimonial
O estoque compõe o ativo circulante, e a redução de R$ 1,1 bilhão impactou diretamente:
• o ativo total
• o patrimônio líquido
3. Tributos Federais e Estaduais
Erros no estoque afetam diretamente:
• PIS e COFINS, créditos indevidos
• ICMS, base de cálculo incorreta
• IRPJ e CSLL, lucro tributável distorcido
• SPEDs, inconsistências entre EFD ICMS, IPI, ECD e ECF
Tudo está interligado.
CPC 16, Como Estoques Devem Ser Mensurados
O CPC 16 determina que estoques devem ser mensurados pelo custo ou pelo valor realizável líquido, dos dois o menor.
O custo deve incluir:
• preço de compra
• impostos não recuperáveis
• fretes e seguros
• custos de transformação, quando aplicável
Métodos aceitos:
• identificação específica
• PEPS, FIFO
• custo médio ponderado
O método UEPS, LIFO, não é permitido.
Principais Lições do Caso Grupo Mateus
| Falha Identificada | Consequência | Ação Recomendada |
|---|---|---|
| Custo médio incorreto | Estoque superavaliado | ERPs robustos e integrados |
| Inventário físico esporádico | Divergência físico x contábil | Inventários mensais ou contínuos |
| Falta de rastreabilidade | Perdas e furtos ocultos | Monitoramento e reconciliação |
| Complexidade tributária ignorada | Erros em ICMS e PIS/COFINS | Integração fiscal e contábil |
| Alertas de auditoria esquecidos | Distorções acumuladas | Governança ativa |
Boas Práticas para um Controle de Estoque Confiável
• inventários regulares, preferencialmente mensais
• sistemas integrados entre contábil, fiscal e operacional
• conciliações periódicas entre estoque físico e contábil
• políticas de prevenção de perdas bem estruturadas
• acompanhamento contínuo das recomendações de auditoria
O Estoque Como Protagonista do Resultado
O caso do Grupo Mateus deixou claro que o controle de estoque não é apenas uma atividade operacional, ele impacta diretamente o CPV, o lucro bruto, o patrimônio líquido e até mesmo a credibilidade financeira de uma empresa. Quando uma organização cresce rapidamente, os riscos aumentam e a necessidade de controles adequados se torna ainda mais essencial.
Mas, além dos números, há outro aprendizado importante.
É inegável que o Grupo Mateus é um fenômeno no Nordeste, antes das críticas, é importante lembrar que tudo o que está acontecendo agora é comum em empresas com forte DNA empreendedor e foco agressivo em crescimento.
Quando o ritmo de expansão é muito rápido, é natural que, em alguns momentos, o crescimento avance mais rápido que os controles internos, o que o Grupo Mateus está fazendo agora é justamente “arrumar a casa”, um processo totalmente normal em grandes organizações que escalam em alta velocidade.
A grande lição que fica é a capacidade de reagir rápido, poderiam ter feito esses ajustes em 2021, sim, mas cada empresa tem seu momento de maturidade, e os decisores provavelmente entenderam que agora era o ponto ideal para enfrentar essa revisão de forma mais sólida e estruturada.
Crescer é desafiador, crescer rápido é ainda mais, e corrigir rotas faz parte da jornada de qualquer empresa que deseja continuar evoluindo.
O caso reforça que controles internos não travam o crescimento, eles sustentam o crescimento, e que revisar processos não é sinal de fraqueza, mas de profissionalismo.
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